Nestes dias sombrios, em decorrência do Coronavírus, que tanto sofrimento e angústia tem nos trazido, vale a pena relembrar os atos heroicos dos escoteiros de São Paulo, durante a pandemia de Gripe Espanhola.
Criado em 1907 por Baden-Powell, na Inglaterra, o escotismo ainda era uma instituição jovem em 1918. Devido às suas características educacionais, especialmente na formação do caráter, uma expansão rápida levou escoteiros para vários países, dentre eles o Brasil, onde chegaram em 1910.
Em 1918, portanto oito anos após a chegada do escotismo em nosso país, surge a gripe espanhola, uma pandemia do vírus influenza, que se espalhou por todas as partes do mundo, matando em torno de 50 milhões de pessoas. A Gripe Espanhola chegou ao Brasil pelo porto de Recife, através da tripulação do Navio Demerara, em setembro de 1918 e fez aproximadamente 35 mil vítimas.
A grande periculosidade de infecção levou à imposição de medidas sanitárias severas. Foram fechadas escolas, estabelecimentos comerciais, cinemas, cabarés e bares. As festas populares e partidas esportivas foram proibidas, tudo isso para evitar a aglomeração de pessoas, pois, as atividades que exigiam maior contato interpessoal aumentavam as chances de contaminação. Foram meses em que a vida social limitou-se ao máximo.
O Jornal Correio Paulistano na edição 19859 de 18 de outubro 1918, traz o comunicado da Associação Brasileira de Escoteiros a respeito das medidas a serem adotadas (grafia da época):
O conselho superior da A.B.E., enviou uma carta-circular a todas commissões regionaes do Estado, determinando a suspensão de todo e qualquer exercicio ou demais trabalhos, enquanto durar a epidemia de influenza.
Identica medida adoptou a Commissão Regional de São Paulo, que remetterá circulares no mesmo sentido a todas commissões districtaes desta capital.
O Conselho Superior e a C.R.E. de São Paulo aconselham a todos os escoteiros que sigam estrictamente as prescripções da Directoria do Serviço Sanitario.
Com o agravamento da situação sanitária, os escoteiros paulistas voluntariamente ofereceram-se ao trabalho e tiveram papel de destaque. O jornal Correio Paulistano na sua edição de 29 de outubro de 1918 relata o início dos trabalhos:
Os escoteiros filiados a C.D.E. do Centro, offereceram os seus serviços a directoria do Serviço Sanitario, para que sejam aproveitados enquanto durar a presente epidemia de grippe.
Aquella repartição declarou acceitar o offerecimento dos escoteiros, servindo-se dos seus trabalhos na primeira oportunidade.
Desde hontem, dez dos mesmos escoteiros estão substituindo os funccionarios enfermos da Repartição Central dos Telegraphos. Outros rapazes filiados a mesma commissão, offereceram-se para substituir os empregados enfermos da Companhia Telephonica. Esta empresa agradeceu o offerecimento, declarando, entretanto, não poder acceital-o, visto como o bom desempenho dos serviços telephonicos, depende de uma longa pratica, que os escoteiros ainda não possuem.
Os escoteiros pretendem offerecer os seus prestimos a outras empresas e repartições publicas.
Hoje, às 16:00 horas, os escoteiros filiados a C.D.E de Villa Mariana se reunirão na sede social. A essa reunião devem comparecer os escoteiros que tenham 12 annos de edade ou mais. É desejo dessa commissão districtal que todos os escoteiros dessa cidade se apresentem.
Como se não bastasse o trabalho na Repartição Central de Telégrafos e no Serviço Sanitário, em 04 de novembro de 2018, no mesmo periódico, Correio Paulistano, relata um novo desafio para os escoteiros, fazer as estatísticas da epidemia:
Os jovens escoteiros começarão hoje a prestar mais um relevante serviço. Vão recolher dados e organizar o movimento hospitalar dos hospitaes provisorios. Esse serviço, vai ser feito pelos escoteiros, que irão a cada hospital, buscar os dados do movimento hospitalar.
No Almanaque O Tico-Tico, edição 0855, de 1922, o Velho Lobo descreve os acontecimentos e a atuação dos jovens escoteiros durante a pandemia:
Dentre os grandes benefícios prestados pela A.B.E. desde sua existência, figura o auxílio levado a população paulista por ocasião da grippe que com caracter epidemico assolou o Brasil em fins de 1918.
Como em quasi toda parte, São Paulo teve a sua vida paralysada, o commercio cerrou as portas, as fabricas pararam, excassearam os meios de transporte ficando a maioria da população sem ter como se abastecer dos generos de primeira necessidade, os serviços postais e telegraphicos ficaram desorganizados, os médicos não repousavam e as pharmacias não davam vasão às receitas que lhes chegavam aos montes.
Foi em tal situação que os escoteiros de São Paulo, no cumprimento da missão que a sua nobre vida lhes impõem, offereceram seus serviços às autoridades, pondo immediatamente mãos à obras. A pedido do director do Serviço Sanitario, os escoteiros levantaram o cadastro médico e das pharmacias, serviço valiosissimo para a Saude Publica e que foi feito com admirável presteza.
O serviço de entrega de telegrammas paralysou por falta de estafetas, atacados quasi todos pela grippe. Duas turmas de escoteiros trabalharam durante três semanas, entregando uma média de 617 telegrammas por dia. Além dos serviços de estafetas, trabalharam na sala do archivo, e dos apparelhos, recebendo e transmittindo despachos.
As pharmacias não tinham elementos para fazer a distribuição das receitas aviadas. Foram os escoteiros attender a esse serviço, recebendo 362 chamados de pharmacias.
A pedido do diretor dos hospitaes provisórios, os escoteiros passaram a fazer diariamente a estatistica do movimento hospitalar, dos leitos vagos, das altas e casos novos, serviços feitos com a mais perfeita precisão.
Prestaram ainda relevantes serviços fazendo o transporte de generos e objectos para particulares, tendo atendido a 357 chamados.
Acções desta natureza são bastantes para chamar sobre si uma profunda admiração e gratidão publicas. Infelizmente os escoteiros continuam ignorados pela maioria, inteiramente desinteressada pelo monumental trabalho que elles lentamente vão realizando.
De dois officios de aggradecimento que por aquella occasião recebeu o presidente da A.B.E., do engenheiro chefe dos telegraphos e director geral do Serviço Sanitário, destacamos os seguintes tópicos: “Os serviços prestados por esses jovens patriotas, são dominio publico. Nesta repartição elles foram inegualaveis, não só pelos esforços empregados como ainda pela severa disciplina e esmerada educação”
E do director do Serviço Sanitario: “Não posso esquecer a dedicada e patriotica A.B.E. tão sabiamente dirigida por V. Ex., no seu todo quasi composta por creanças, a qual veio expontaneamente apresentar-se em linha às ordens de quem della precisasse para superar a desgraça geral. Estão na consciencia de todos, sempre rememorados com admiração os grandiosos e variados serviços que, como estafetas e portadores de socorros em medicamentos e alimentos, prestaram os destemidos escoteiros, dando magnífico exemplo de abnegação e patriotismo. Todos cumpriram religiosamente o seu dever.”
A dirigil-os e a guial-os estiveram sempre a postos os seu dignos chefes Dr. José Carlos de Macedo Soares (presidente da A.B.E.), Coronel Pedro Dias de Campos e Adelardo Soares Caiuby.
Uma das vítimas mais ilustres da pandemia, fora o presidente eleito, Rodrigues Alves, porém escoteiros também padeceram da moléstia. No Almanaque O Tico-Tico, em sua edição de número 946, de 1923, relata uma homenagem da Liga de Sports da Marinha, aos Escoteiros do Brasil. Durante a realização de uma regata na Baía de Botafogo, cada páreo tinha por patrono um escoteiro que havia se distinguido por algum grande ato, no programa um pequeno resumo explicava a razão de ser da escolha do patrono:
Escoteiro João Cantarelli Netto – Escoteiro da Associação Brasileira de Escoteiros, victimado pela grippe em 25 de dezembro de 1918, quando com rara dedicação e coragem, trabalhava como enfermeiro no hospital de Jahú (Estado de São Paulo), por occasião da grande pandemia da gripe hespanhola, que assolou o nosso caro Brasil.
Além dos serviços relatados acima, os escoteiros auxiliaram na busca de informações de pessoas desaparecidas durante a pandemia, parentes que não tinham notícias de seus familiares, eram prontamente encontrados pelos jovens, e seus paradeiros, comunicados às famílias.
Não só na capital paulista os escoteiros se voluntariaram, existem notícias desse trabalho nas cidades de Jaú, Itu, Bauru, Ibitinga, Sorocaba, entre outras.
O Escotismo Brasileiro, tão jovem foi posto à prova e demonstrou a sua organização, o comprometimento com o dever de seus jovens e adultos, que mesmo com o risco de suas próprias vidas, ajudaram o próximo em suas comunidades.




Bibliografia:
A Cigarra nº 103 de 24/12/1918
A CIGARRA, Ano V, nº 105, 1º de fevereiro de 1919.
A Epidemia e a Instrucção Publica: Na Associação Brasileira de Escoteiros. Correio Paulistano. São Paulo, p. 3-3. 18 out. 1918.
Os escoteiros e a epidemia. Correio Paulistano. São Paulo, p. 2-2. 29 out. 1918. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_06/48181. Acesso em: 19 mar. 2020.
LOBO, Velho. Escotismo. Almanaque O Tico Tico: Associação Brasileira de Escotismo. Rio de Janeiro, p. 16-16. 22 fev. 1922. Disponível em: http://memoria.bn.br/pdf/153079/per153079_1922_00855.pdf. Acesso em: 18 mar. 2020.
LOBO, Velho. Escotismo. Almanaque O Tico Tico: A Liga de Sports da Marinha presta uma bella homenagem aos escoteiros. Rio de Janeiro, p. 15-16. 21 out. 1923. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/153079/20511 . Acesso em: 19 mar. 2020.
IANSEN, Marta. História e outras histórias. 2016. Disponível em: https://martaiansen.blogspot.com/2016/05/gripe-espanhola.html. Acesso em: 18 mar. 2020.
O Autor: Beto Basso é Cirurgião Dentista, membro dos Escoteiros do Brasil no 86/SC GE Xapecó e integrante da Patrulha Jaguatirica, cartunista do Balaio Quadrado.
[As seguintes imagens e texto, foram encontradas no site da Região Escoteira São Paulo. Colaboração do Observatório Escoteiro do Espírito Santo. A.B.E. era a antiga Associação Brasileira de Escoteiros, hoje extinta. Atualmente, a organização nacional está com a quase centenária União dos Escoteiros do Brasil, com sede em Curitiba, PR.]

